Isso aí, ô ô, é um pouquinho de Brasil

1 01UTC Junho 01UTC 2009 por André Oliveira

Num programa de esporte, discutia-se sobre as reformas nos estádios para a copa de 2014. Alguém calculou que talvez ficasse mais barato demolir o Maracanã e reconstruí-lo novamente. Mas, no final do comentário, ressaltou que era preciso considerar também o aspecto sentimental. Qual o quê!, intrometeu-se um terceiro, não se trata apenas de sentimento, o Maracanã é a memória viva do país, um reflexo daquilo que é o Brasil.

O Brasil é o Maracanã. Que tal? Não é o Aleijadinho, não é Machado de Assis, nem Manuel Bandeira. Não é Joaquim Nabuco, nem José Bonifácio. Não é Mário Ferreira dos Santos, nem Gliberto Freyre. É o Maracanã. Moro num estádio de futebol. E o pior que é verdade.

Religião e Reabsorção

25 25UTC Maio 25UTC 2009 por André Oliveira

Em matéria de religião, cronologia é fundamental. Diferentemente do que tentaram fazer os perenialistas, a única forma de um ocidental compreender as demais religiões é reabsorvendo-as no cristianismo, vendo todas as que vieram antes – e não apenas o judaísmo – como uma preparação para a Igreja definitiva, a do fim dos tempos. Como o islamismo é a única que veio depois, não pode ser reabsorvido, sobrando como única alternativa a de ser considerado como uma degeneração da compreensão de Deus. Estou firmemente convicto de que esta é realidade e não apenas a visão simplista e unilateral de um cristão.

Uma historinha filosófica

14 14UTC Maio 14UTC 2009 por André Oliveira

Sócrates estava lá, sentado no cantinho dele, quando, de repente, uma maçã atinge sua cabeça. Não, não é nada disso, essa é uma outra história. Como dizia, Sócrates estava lá sentado, pensando na vida, quando lhe veio a idéia : não seria possível a existência de um conhecimento que tivesse o grau de certeza que nos proporciona a matemática mas que se refira a fatos concretos ? Sim, talvez.

Então saiu feito um maluco a perguntar às pessoas o que seria a justiça, a coragem, a bondade. E lhe davam exemplos de pessoas justas, corajosas, bondosas. Aí ele citava homens que haviam feito algo bem diferente mas que não deixava de qualificá-los de justos, corajosos e bondosos. O que significava que deveria haver algo de comum em ações tão diferentes que nos fazia considerá-los assim. Os amigos e discípulos propunham isso e aquilo e ele ia eliminando as possibilidades que não se encaixavam. Foi isso, em resumo, que fez o incomensurável Sócrates. E o mataram por tal ousadia.

Platão também era um desocupado. Sem ter o que fazer, resolveu seguir Sócrates. E aprofundou a dialética criada pelo professor. Aristóteles foi ainda mais longe, fundando várias ciências. O fato é que todos eles queriam apenas saber mais para poderem ser mais, e ser mais para poderem conhecer mais. E nunca passou disso.

Apesar de todos os desvios, a coisa continuou assim até a Idade Média, quando ser mais tornou-se ser santo. Até então, nenhum filósofo que não se desviou desse caminho se disse sábio. Mas a partir daí, todos se proclamaram sabidos. É isso mesmo : na impossibilidade de se tornarem sábios, os humildes homens modernos se conformaram em ser sabidos.

Muito ocupadinhos, não tiveram tempo de estudar as bobagens que haviam escrito os três ultrapassados velhinhos gregos. Além do mais, o conhecimento que eles estavam adquirindo já era prova suficiente de que tudo que se produziu antes nada significava.

Cada um quis começar do início. Os moderninhos são todos originais. Descartes concluiu que só existiam 2 coisas : o Espírito e a extensão, e garantiu que nada os unia. Então como o Espírito poderia conhecer a extensão ? Foi necessário pedir ajuda a Deus. Depois veio Kant. Este jurou sobre o milho que a inteligência e a moral estavam completamente separadas. Conclusão : um mutilou o homem, o outro mutilou a mente. E jamais pediram perdão a ninguém pelo que fizeram. Ao contrário, houve quem rogasse a eles para perdoarem seus pecados. Sentiam-se mal diante de tamanha revelação. Ora, mas quem não se sente mal quando se deixa mutilar sem sentir dor ?

E Platão comentou com Sócrates, lá de cima : ei, é impressão minha ou esses caras estão separando tudo que a gente conseguiu unir ? E Aristóteles se intrometeu : vocês já ouviram falar em desconstrucionismo ? E um sorriso maroto brotou dos lábios de cada um.

Ato Falho

14 14UTC Abril 14UTC 2009 por André Oliveira

Como todo mau cristão e bom pecador, rezava distraidamente o Pai Nosso quando Deus me puxou as orelhas por meio de um ato falho freudiano: “… seja feita a vossa bondade, assim na terra como nos céus.” Pensei em explicar o que isto significou para mim, mas acredito ser desnecessário.

Gran Torino

13 13UTC Abril 13UTC 2009 por André Oliveira

Gran Torino é um filme acima da média, assim como seu diretor. Mas nada além disso. Nem poderia ser diferente. Talvez, com raríssimas exceções, esse seja o maior elogio concebível que se possa fazer a um diretor ou a uma obra de arte dessa espécie. O cinema não é nem apenas um mero instrumento de propaganda, como quer crer meu amigo Flamarion – embora muitas vezes seja exatamente isso -, nem algo tão sublime que possa se comparar à literatura, como já tentou demonstrar meu amigo César Miranda.

Um filme é sempre uma obra coletiva. O diretor vai sempre depender de uma série de elementos externos para compô-la, a começar pelo roteiro, que muito poucas vezes é responsabilidade sua, ainda que ele o escolha. O controle que o diretor consegue ter sobre o conjunto é sempre parcial, de forma que o resultado final jamais poderia refletir totalmente seu real objetivo, nem muito menos significar fielmente seu estado de alma.

Se compararmos grandes diretores com grandes mestres literários fica patente a superficialidade dos primeiros, facilmente perceptível na biografia e nas entrevistas de cada um deles.

Muito já se escreveu sobre Gran Torino, mas nada se compara, em estranheza, à análise de Martim Vasques. É tão artificial, hiperbólica e rebuscada que a impressão de qualquer um à primeira leitura é de que ou nada daquilo faz sentido ou Clint Eastwood é um homem do outro mundo. Mas ele não é. Trata-se apenas de um cristão libertário, como o próprio crítico admite, que costuma dar muito mais vazão a seu libertarianismo que a seu cristianismo. É só lembrar de Mystic River e Menina de Ouro. E sempre que essa preponderância se dá de forma marcante, Martim tenta reconciliar esse espírito com o de uma metafísica mais profunda, enxergando na obra muito mais do que qualquer um pode ver. Entretanto, dessa vez, ele faz o contrário: enquanto todos vêem um final cristão, ele vê o desespero. Concluirei sobre este fato mais adiante.

Mesmo nesta última película, apesar do significado notoriamente cristão do seu desenlace, os elementos libertários são dominantes. A trama gira em torno de um homem que, enquanto tenta se compreender – ao mesmo tempo em que resiste a isso -, mantém suas atitudes externas inalteradas: é o seu lado libertário. Aquilo lá é inegociável. E, se não fosse o final, seria essa a mensagem que ficaria, a de que apenas a convivência pode mudar um preconceito, o Estado nada pode nem deve fazer quanto a isto. E já seria um grande filme.

Por que ele não confessa seu principal pecado, o de ter matado um inocente na guerra? Não sei a resposta, mas a impressão que dá é de que ele não leva a confissão suficientemente a sério, pois faz questão de enfatizar que tem as mãos sujas de sangue e que, por isso mesmo, é quem deve resolver o conflito. A confissão pode ser considerada, neste contexto, mera formalidade, assim como a barba e o terno. E mais: se é sujo de sangue que ele se entrega à morte para salvar seus amigos, após ter feito uma confissão, não deixa de haver aí um toque de gnosticismo. A salvação se dá por ele mesmo, e não em Cristo, porque o perdão do Senhor antes da morte não foi relevante. Mas devaneio. E admito: sem um forte autocontrole, não é difícil seguir as pegadas de Martim Vasques, por isso o compreendo.

E concluo o que deixei em aberto lá em cima. A interpretação do nosso amigo é rebuscada porque foi a única que conseguiu dar um significado coeso a várias cenas que, interpretadas do ponto de vista cristão, não fazem o menor sentido. O genial Clint Eastwood não poderia deixar essa imagem fragmentária em sua obra. Mas se partirmos do ponto de vista de que o velhinho é apenas mais um dos bons diretores de cinema em meio a tantos outros, é muito mais simples e verossímil supor que ela realmente não é compacta e que deixa transparecer tanto seu lado cristão quanto libertário, sem alcançar uma unidade, provavelmente porque essa unidade também não se dá em sua própria alma.

Aliás, quanto a este aspecto, um outro diretor moderno costuma ser bem mais coerente ao defender certos valores tradicionais. Trata-se de Christopher Nolan, responsável, entre outras preciosidades, por Insônia e O Cavaleiro das Trevas, apesar do talento ainda inferior ao do Clint Eastwood.

Para não deixar uma impressão errada, é bom enfatizar que acompanho e admiro as publicações de Martim Vasques, apesar de quase sempre discordar de suas análises cinematográficas e preferir a visão mais sólida e pé-no-chão de Francisco Escorsim, cujas interpretações metafísicas são facilmente detectáveis na própria obra analisada, sem necessidade de recorrer a saídas mirabolantes.

Os Demônios

7 07UTC Abril 07UTC 2009 por André Oliveira

Se em Crime e Castigo a personagem principal é um indivíduo que se revolta contra seu próprio vazio existencial, tentando compensá-lo com um simulacro de poder, como se pudesse determinar os rumos dos acontecimentos em vez de aceitá-los, integrá-los e direcioná-los de acordo com as possibilidades reais de um sentido transcendente, em Os Demônios essa mesma revolta é analisada do ponto de vista coletivo, quando, não apenas um indivíduo, mas um grupo decide ir nessa mesma direção, ou seja, encontrar na afirmação de um poder sobre a sociedade uma compensação para a sua fraqueza interior.

É óbvio que as conseqüências dessa atitude são bem mais graves, porque um grupo tem realmente um poder muito maior sobre a sociedade que um indivíduo isolado. Embora ambos não demonstrem, em última análise, poder algum, pois são incapazes de direcionar os acontecimentos de acordo com o plano inicial, a interferência na ordem social é sentida, e no segundo caso de forma muito mais intensa. Além dos desastres diretamente causados pela tentativa de controlar os fatos, a elaboração de uma teoria que justifique suas ações amplifica enormemente a gravidade das pretensões dessa turma, pois o conflito psicológico de um único indivíduo não passa de um momento atomístico na história da humanidade, mas as lucubrações coletivas desses pseudo-intelectuais terminam por se integrar à cultura, permitindo que a doença seja transmitida para um número imensamente maior de pessoas, que já procuravam uma solução fácil para o seu mal e acabam por encontrá-la. Percebam que, apesar das teorias desse tipo terem sido sempre criadas por indivíduos e não por uma coletividade, eles o fazem sempre em nome de determinado grupo contra o restante da sociedade.

Por fim, enquanto a simples auto-análise é capaz de curar um mal individual, ainda que seja necessária uma ajuda externa, como no caso de Raskolnikov, quando a mesma doença se torna uma sociopatia já não é possível eliminá-la por esse expediente, pois o reforço mútuo entre os membros do grupo é uma barreira efetiva contra a auto-análise e o conselho dos que não comungam daqueles ideais.

O Homem e a Sociedade

6 06UTC Abril 06UTC 2009 por André Oliveira

I

As sociedades se formaram a partir da luta do homem contra a natureza. Elas se diferenciam uma da outra pela forma como seus membros encaram essa luta.

Vou classificá-las em 3 tipos para fins didáticos :

1) As que a vêem como algo sagrado.

Aqui a luta tem um sentido transcendente, sem um fim em si mesma. Nestas, o sentido da vida humana é dado pela própria forma de interpretar o mundo, ou seja, como manifestação divina. Os pólos que parecem se repelir no sentido horizontal encontram na intersecção com a vertical o ponto de unificação em direção a Deus, o único que pode dar um verdadeiro sentido à nossa existência. A individualidade tem, assim, fácil acesso ao universal, pois este já é identificado em cada ser (seja o homem, uma árvore ou uma pedra) em sua condição simbólica.

2) As que a vêem como um castigo.

Aqui a luta é relegada a uma parte da sociedade : os escravos. Ela perde seu caráter sagrado e, por isso, os que são responsáveis por ela perdem a dignidade humana. São tidos como animais. Há uma valorização dos intelectuais que utilizam seu tempo livre de forma sagrada, ou seja, investigando os mistérios do mundo, que ainda é visto, pelo menos em parte, como manifestação divina. Para se elevar a Deus, portanto, é preciso estar livre da necessidade de lutar com a natureza. Isso não quer dizer, entretanto, que os que precisam lutar (ou seja, realizar trabalhos manuais) não podem ter tal pretensão, mas apenas que o trabalho não lhe dá tal condição por ele mesmo. A individualidade já tem certa dificuldade de alcançar o universal, pois os meios para tal se restringem ao intelectual. Muitos, então, usam o seu tempo livre para simples diversão.

3) As que tentam encontrar nela um sentido em si mesma

É quando o sentido da vida passa a ser o trabalho, mas este já não carrega simbologia nenhuma, ou seja, perde todo seu caráter sagrado. Aqui o trabalho manual é igualado ao intelectual, pelo menos no que se refere à maneira como ambos são encarados do ponto de vista da luta contra a natureza. Apesar do intelectual ser geralmente mais valorizado economicamente, ambos se igualam no fato de terem um fim neles mesmos. A individualidade tem enormes dificuldades de atingir o universal, pois ela não tem referências, a não ser os resíduos das sociedades tradicionais que continuam impregnando parte da sua.

Neste tipo, o trabalho é visto como a única coisa importante (como algo sagrado, mas dessacralizado), e o tempo livre perde toda a importância, pois é algo a se considerar apenas do ponto de vista individual. Mesmo quando considera a indústria da diversão, a sociedade só a encara como um trabalho, não interessando de forma nenhuma como diversão em si. Se aqui o trabalho é considerado sagrado por analogia ao verdadeiro sagrado, a diversão é profana no sentido absoluto do termo. É por isso que o homem moderno, que vive neste tipo de sociedade, não consegue encontrar sentido na vida nem quando trabalha nem quando se diverte, pois só há vazio em todo canto.

É importante que se registre, antes que eu continue, que tudo que foi exposto até agora se refere exclusivamente à forma como cada tipo de sociedade encara a luta pela sobrevivência. O ponto de vista de cada indivíduo em particular não foi considerado, por motivos óbvios. Digo isso porque, para a maioria dos homens, é claro que o trabalho não é um fim em si, mas apenas uma fonte de renda para seus objetivos pessoais.

Continuando. Aqui se encontram as raízes tanto da atomização do ser humano quanto do coletivismo. Sem poder enxergar um sentido em nada, o homem dá importância a tudo, principalmente ao novo, pois é sempre preciso encontrar um elemento diferencial, e não havendo, inventa-se. Surge, assim, o relativismo cultural, moral, intelectual, etc. Já o coletivismo é derivado do desejo, impossível de ser refreado, de alcançar o universal. Quase que impossibilitado de realizá-lo na individualidade devido à perda das tradições, o ser humano procura alcançá-lo materialmente, tentando encontrar na massificação a realização do seu sonho, esquecendo-se que, para isso, terá que se abster da própria consciência, o que significa que, mesmo que ele se realize, não poderá vivenciá-lo como imagina, pois já terá perdido sua individualidade.

II

A classificação que expus, como disse, é apenas didática, portanto jamais houve uma sociedade com características exclusivas de uma das 3 que descrevi. Mas todas se constituíram numa mescla de todas elas, com predominância de uma ou de outra. No entanto, há uma tendência cronológica em direção ao terceiro tipo, principalmente no Ocidente.

A primeira traz o perfil da sociedade tradicional (referente a Tradição, do ponto de vista religioso), na qual a luta contra a natureza não era tida como tal, ou seja, não era vista assim, pois o homem era considerado como parte dela. Mas não da natureza como matéria, objeto de transformação, e sim como manifestação divina. O ato humano de transformá-la para que pudesse sobreviver já era em si uma simbologia e tinha para ele um significado transcendente. Assim, o interesse da sociedade coincidia com o dos indivíduos. Esse é um tipo ideal que, talvez, nunca tenha existido.

Mas, não importando quais as razões, o fato é que a necessidade de aprimoramento dessa luta em busca de uma maior eficácia de resultados levou o homem a se desvincular dessa concepção e passar a considerar a natureza como um objeto a ser transformado em seu benefício. Dessa forma, o objetivo principal desse novo tipo de sociedade passou a ser o de conseguir libertar o máximo possível o indivíduo da obrigação de trabalhar para que ele tivesse cada vez mais tempo livre para fazer o que quisesse. Como a Tradição ainda não havia sido completamente perdida, durante grande parte desse tempo o homem se dirigiu a Deus. A “diversão” ainda não tinha um caráter totalmente profano. É importante frisar que, neste tipo, o interesse da própria sociedade, ou seja, do ponto de vista dela mesma e não dos indivíduos, era o de produzir esse tempo livre, por isso seu objetivo ainda coincidia com o de parte de seus membros. É claro que, para almejar a produção desse ócio, ela tinha que se preocupar também em tornar mais eficazes os meios de luta contra a natureza.

O fato é que, com o passar do tempo, toda o interesse da sociedade passou a estar vinculado tão somente ao aprimoramento dessa técnica, mas sem se preocupar com o que fariam os indivíduos em suas horas de folga, excetuando-se, claro, quando eles as utilizassem para romper os limites da ordem dessa sociedade. Assim, o interesse social passou a se opor totalmente ao dos indivíduos. Nenhum ser humano, atualmente, excetuando-se os casos patológicos, consegue enxergar o seu trabalho como sendo o sentido de sua vida. Ele trabalha para poder sobreviver e , aí sim, encontrar algo que possa dar sentido a ela. Mesmo que ele ache seu trabalho prazeroso, por encará-lo de forma profana, não consegue ver nele nada de último, ou seja, que tenha um fim em si mesmo (este fim em si mesmo só teria sentido se fosse transcendente). Ele é sempre um meio e nunca um fim. No entanto, para a sociedade, o fim é mesmo o trabalho. Ela não tem outro interesse. Então, todos os seus membros entram em choque com ela. O homem está, mais do que nunca, sozinho e sem orientação, e é obrigado a encontrar o sentido de sua vida por si mesmo.

Assim, cria-se uma contradição, dentro da qual o ser humano é obrigado a sobreviver : ele precisa da sociedade, pois não consegue ficar vivo fora dela, mas não pode se realizar individualmente se se orientar por ela. E mais, devido ao fato desta sociedade ter perdido quase completamente o contato com a Tradição, a dificuldade que ele tem para se realizar é imensa.

E é essa busca desorientada e frenética do homem no sentido de sua auto-realização que faz com que muitos deles não consigam distinguir seus próprios objetivos dos da sociedade, por não identificá-los como contraditórios, e tentem transformá-la para se adequar aos seus próprios ideais.

III

Nesta terceira e última parte, o foco será direcionado unicamente para o terceiro tipo de sociedade, pois é nela que vivemos.

Ela se formou a partir da necessidade humana de juntar forças para lutar contra a natureza. Entretanto, acabou tomando um rumo em que seus objetivos se tornaram totalmente incompatíveis com o dos indivíduos que a compõem. Se a natureza no sentido físico foi considerado o primeiro obstáculo à realização humana, agora é a própria sociedade que passa a representar uma segunda natureza, na qual ele vive e da qual não pode se libertar. Então, o homem precisa encontrar formas de se realizar em meio à contradição de sua própria condição de ser social.

Uma das maneiras de conseguir isso é tornar o objetivo da sociedade igual ao seu. E não há como alcançá-lo sem os meios políticos. Foi com a pretensão de atingir essa meta que surgiram todas as ideologias totalitárias. Um outro jeito de resolver o problema é simplesmente negar a sociedade e tentar viver fora dela. Daqui derivam as idéias anarquistas. Mas a única resposta sóbria vem daqueles que procuram se realizar dentro da tensão da sociedade, nem pretendendo aboli-la nem adequá-la aos seus sonhos, mas apenas de dar sua contribuição para melhorá-la, mesmo que ela não a aceite num primeiro momento.

As revoluções são uma grande prova de como funciona esse mecanismo. Quase todas têm uma causa nobre, mas sempre terminam com o fortalecimento do poder central e com o aumento da coação sobre os indivíduos. E não é difícil entender a razão : as pessoas que as elaboram não levam em conta a contradição entre indivíduo e sociedade e pensam que é possível realizar o sonho de criar uma sociedade em que o objetivo de cada uma coincida com o dela, o que é de antemão impossível, pois cada um tem seu plano e o da sociedade é um só. Então, na esperança de resolver esse enigma, muitos passam a identificar a sociedade com o indivíduo e vice versa, diluindo sua personalidade no todo social ou tornando-a um ser concreto, com pensamentos próprios, como um grande monstro amorfo. É apavorante perceber que há mais de 2 séculos esse tem sido o grande objetivo do homem, mesmo depois de todos os problemas gerados pelas tentativas frustradas de realizá-lo.

A única maneira de tentar diminuir a contradição intrínseca ao binômio indivíduo – sociedade é tornar o objetivo transcendente, mesmo que cada um utilize um modo particular de se alçar a essa meta. Uma sociedade assim formada, mesmo com todas as particularidades de seus membros, teria parte de seu fim coincidente com o dos indivíduos. Digo apenas parte porque não é possível ter somente esse objetivo, pois as pessoas precisam realizar suas atividades ordinárias para sobreviver, a não ser que consideremos possível de existir o primeiro tipo, em que até essas tarefas tinham um caráter transcendente.

Do título

1 01UTC Abril 01UTC 2009 por André Oliveira

Para quem não leu o livro, adianto que Raskolnikov é a personagem principal de Crime e Castigo, romance de Dostoiévski. Trata-se de um jovem estudante que percebe a insignificância de sua porca vida e tenta mudá-la buscando adquirir algum controle sobre ela. Termina por cometer um assassinato. A trama é o conflito psicológico do protagonista, que luta ao mesmo tempo para entender e dar uma solução ao mal que praticou. Só alcança absolvição no amor de uma mulher. Mas esta exige que ele confesse e pague pelos seus pecados. E é assim que ele acaba se compreendendo e se redimindo ao ser compreendido e redimido por ela, a misericórdia.