O Homem e a Sociedade

I

As sociedades se formaram a partir da luta do homem contra a natureza. Elas se diferenciam uma da outra pela forma como seus membros encaram essa luta.

Vou classificá-las em 3 tipos para fins didáticos :

1) As que a vêem como algo sagrado.

Aqui a luta tem um sentido transcendente, sem um fim em si mesma. Nestas, o sentido da vida humana é dado pela própria forma de interpretar o mundo, ou seja, como manifestação divina. Os pólos que parecem se repelir no sentido horizontal encontram na intersecção com a vertical o ponto de unificação em direção a Deus, o único que pode dar um verdadeiro sentido à nossa existência. A individualidade tem, assim, fácil acesso ao universal, pois este já é identificado em cada ser (seja o homem, uma árvore ou uma pedra) em sua condição simbólica.

2) As que a vêem como um castigo.

Aqui a luta é relegada a uma parte da sociedade : os escravos. Ela perde seu caráter sagrado e, por isso, os que são responsáveis por ela perdem a dignidade humana. São tidos como animais. Há uma valorização dos intelectuais que utilizam seu tempo livre de forma sagrada, ou seja, investigando os mistérios do mundo, que ainda é visto, pelo menos em parte, como manifestação divina. Para se elevar a Deus, portanto, é preciso estar livre da necessidade de lutar com a natureza. Isso não quer dizer, entretanto, que os que precisam lutar (ou seja, realizar trabalhos manuais) não podem ter tal pretensão, mas apenas que o trabalho não lhe dá tal condição por ele mesmo. A individualidade já tem certa dificuldade de alcançar o universal, pois os meios para tal se restringem ao intelectual. Muitos, então, usam o seu tempo livre para simples diversão.

3) As que tentam encontrar nela um sentido em si mesma

É quando o sentido da vida passa a ser o trabalho, mas este já não carrega simbologia nenhuma, ou seja, perde todo seu caráter sagrado. Aqui o trabalho manual é igualado ao intelectual, pelo menos no que se refere à maneira como ambos são encarados do ponto de vista da luta contra a natureza. Apesar do intelectual ser geralmente mais valorizado economicamente, ambos se igualam no fato de terem um fim neles mesmos. A individualidade tem enormes dificuldades de atingir o universal, pois ela não tem referências, a não ser os resíduos das sociedades tradicionais que continuam impregnando parte da sua.

Neste tipo, o trabalho é visto como a única coisa importante (como algo sagrado, mas dessacralizado), e o tempo livre perde toda a importância, pois é algo a se considerar apenas do ponto de vista individual. Mesmo quando considera a indústria da diversão, a sociedade só a encara como um trabalho, não interessando de forma nenhuma como diversão em si. Se aqui o trabalho é considerado sagrado por analogia ao verdadeiro sagrado, a diversão é profana no sentido absoluto do termo. É por isso que o homem moderno, que vive neste tipo de sociedade, não consegue encontrar sentido na vida nem quando trabalha nem quando se diverte, pois só há vazio em todo canto.

É importante que se registre, antes que eu continue, que tudo que foi exposto até agora se refere exclusivamente à forma como cada tipo de sociedade encara a luta pela sobrevivência. O ponto de vista de cada indivíduo em particular não foi considerado, por motivos óbvios. Digo isso porque, para a maioria dos homens, é claro que o trabalho não é um fim em si, mas apenas uma fonte de renda para seus objetivos pessoais.

Continuando. Aqui se encontram as raízes tanto da atomização do ser humano quanto do coletivismo. Sem poder enxergar um sentido em nada, o homem dá importância a tudo, principalmente ao novo, pois é sempre preciso encontrar um elemento diferencial, e não havendo, inventa-se. Surge, assim, o relativismo cultural, moral, intelectual, etc. Já o coletivismo é derivado do desejo, impossível de ser refreado, de alcançar o universal. Quase que impossibilitado de realizá-lo na individualidade devido à perda das tradições, o ser humano procura alcançá-lo materialmente, tentando encontrar na massificação a realização do seu sonho, esquecendo-se que, para isso, terá que se abster da própria consciência, o que significa que, mesmo que ele se realize, não poderá vivenciá-lo como imagina, pois já terá perdido sua individualidade.

II

A classificação que expus, como disse, é apenas didática, portanto jamais houve uma sociedade com características exclusivas de uma das 3 que descrevi. Mas todas se constituíram numa mescla de todas elas, com predominância de uma ou de outra. No entanto, há uma tendência cronológica em direção ao terceiro tipo, principalmente no Ocidente.

A primeira traz o perfil da sociedade tradicional (referente a Tradição, do ponto de vista religioso), na qual a luta contra a natureza não era tida como tal, ou seja, não era vista assim, pois o homem era considerado como parte dela. Mas não da natureza como matéria, objeto de transformação, e sim como manifestação divina. O ato humano de transformá-la para que pudesse sobreviver já era em si uma simbologia e tinha para ele um significado transcendente. Assim, o interesse da sociedade coincidia com o dos indivíduos. Esse é um tipo ideal que, talvez, nunca tenha existido.

Mas, não importando quais as razões, o fato é que a necessidade de aprimoramento dessa luta em busca de uma maior eficácia de resultados levou o homem a se desvincular dessa concepção e passar a considerar a natureza como um objeto a ser transformado em seu benefício. Dessa forma, o objetivo principal desse novo tipo de sociedade passou a ser o de conseguir libertar o máximo possível o indivíduo da obrigação de trabalhar para que ele tivesse cada vez mais tempo livre para fazer o que quisesse. Como a Tradição ainda não havia sido completamente perdida, durante grande parte desse tempo o homem se dirigiu a Deus. A “diversão” ainda não tinha um caráter totalmente profano. É importante frisar que, neste tipo, o interesse da própria sociedade, ou seja, do ponto de vista dela mesma e não dos indivíduos, era o de produzir esse tempo livre, por isso seu objetivo ainda coincidia com o de parte de seus membros. É claro que, para almejar a produção desse ócio, ela tinha que se preocupar também em tornar mais eficazes os meios de luta contra a natureza.

O fato é que, com o passar do tempo, toda o interesse da sociedade passou a estar vinculado tão somente ao aprimoramento dessa técnica, mas sem se preocupar com o que fariam os indivíduos em suas horas de folga, excetuando-se, claro, quando eles as utilizassem para romper os limites da ordem dessa sociedade. Assim, o interesse social passou a se opor totalmente ao dos indivíduos. Nenhum ser humano, atualmente, excetuando-se os casos patológicos, consegue enxergar o seu trabalho como sendo o sentido de sua vida. Ele trabalha para poder sobreviver e , aí sim, encontrar algo que possa dar sentido a ela. Mesmo que ele ache seu trabalho prazeroso, por encará-lo de forma profana, não consegue ver nele nada de último, ou seja, que tenha um fim em si mesmo (este fim em si mesmo só teria sentido se fosse transcendente). Ele é sempre um meio e nunca um fim. No entanto, para a sociedade, o fim é mesmo o trabalho. Ela não tem outro interesse. Então, todos os seus membros entram em choque com ela. O homem está, mais do que nunca, sozinho e sem orientação, e é obrigado a encontrar o sentido de sua vida por si mesmo.

Assim, cria-se uma contradição, dentro da qual o ser humano é obrigado a sobreviver : ele precisa da sociedade, pois não consegue ficar vivo fora dela, mas não pode se realizar individualmente se se orientar por ela. E mais, devido ao fato desta sociedade ter perdido quase completamente o contato com a Tradição, a dificuldade que ele tem para se realizar é imensa.

E é essa busca desorientada e frenética do homem no sentido de sua auto-realização que faz com que muitos deles não consigam distinguir seus próprios objetivos dos da sociedade, por não identificá-los como contraditórios, e tentem transformá-la para se adequar aos seus próprios ideais.

III

Nesta terceira e última parte, o foco será direcionado unicamente para o terceiro tipo de sociedade, pois é nela que vivemos.

Ela se formou a partir da necessidade humana de juntar forças para lutar contra a natureza. Entretanto, acabou tomando um rumo em que seus objetivos se tornaram totalmente incompatíveis com o dos indivíduos que a compõem. Se a natureza no sentido físico foi considerado o primeiro obstáculo à realização humana, agora é a própria sociedade que passa a representar uma segunda natureza, na qual ele vive e da qual não pode se libertar. Então, o homem precisa encontrar formas de se realizar em meio à contradição de sua própria condição de ser social.

Uma das maneiras de conseguir isso é tornar o objetivo da sociedade igual ao seu. E não há como alcançá-lo sem os meios políticos. Foi com a pretensão de atingir essa meta que surgiram todas as ideologias totalitárias. Um outro jeito de resolver o problema é simplesmente negar a sociedade e tentar viver fora dela. Daqui derivam as idéias anarquistas. Mas a única resposta sóbria vem daqueles que procuram se realizar dentro da tensão da sociedade, nem pretendendo aboli-la nem adequá-la aos seus sonhos, mas apenas de dar sua contribuição para melhorá-la, mesmo que ela não a aceite num primeiro momento.

As revoluções são uma grande prova de como funciona esse mecanismo. Quase todas têm uma causa nobre, mas sempre terminam com o fortalecimento do poder central e com o aumento da coação sobre os indivíduos. E não é difícil entender a razão : as pessoas que as elaboram não levam em conta a contradição entre indivíduo e sociedade e pensam que é possível realizar o sonho de criar uma sociedade em que o objetivo de cada uma coincida com o dela, o que é de antemão impossível, pois cada um tem seu plano e o da sociedade é um só. Então, na esperança de resolver esse enigma, muitos passam a identificar a sociedade com o indivíduo e vice versa, diluindo sua personalidade no todo social ou tornando-a um ser concreto, com pensamentos próprios, como um grande monstro amorfo. É apavorante perceber que há mais de 2 séculos esse tem sido o grande objetivo do homem, mesmo depois de todos os problemas gerados pelas tentativas frustradas de realizá-lo.

A única maneira de tentar diminuir a contradição intrínseca ao binômio indivíduo – sociedade é tornar o objetivo transcendente, mesmo que cada um utilize um modo particular de se alçar a essa meta. Uma sociedade assim formada, mesmo com todas as particularidades de seus membros, teria parte de seu fim coincidente com o dos indivíduos. Digo apenas parte porque não é possível ter somente esse objetivo, pois as pessoas precisam realizar suas atividades ordinárias para sobreviver, a não ser que consideremos possível de existir o primeiro tipo, em que até essas tarefas tinham um caráter transcendente.

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Uma resposta to “O Homem e a Sociedade”

  1. myllena cristina Says:

    legal…………………….

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