Influência Cultural

O homem é produto do meio, eis uma meia verdade. Se o homem é capaz de fazer escolhas, é óbvio que o meio não pode determiná-lo por completo. Mas pode restringir bastante seu campo de atuação. A cultura é este meio. Mas qual cultura?

Vamos aos poucos. Primeiro é preciso entender como de dá o processo de conhecimento do ser humano. Por incrível que pareça, o que há de mais importante nesse processo é a imaginação. Sem ela, todo o resto perde o valor. Não há nada que o homem possa conhecer sem antes imaginar. E é justamente através da limitação da capacidade imaginativa que o meio cultural molda a personalidade humana. Não precisa ser muito genial para perceber que a cultura moderna, com sua glorificação da “lógica racional”, diminuiu incrivelmente a capacidade imaginativa do homem contemporâneo.

Vou dar um exemplo para esclarecer melhor: digamos que um certo sujeito nasceu e viveu todos os seus dias numa determinada cidade, onde nunca houve roubos e assaltos. Digamos que ele nunca teve acesso aos meios de comunicação de massa e nunca soube que em outros lugares estes problemas são endêmicos. Se este sujeito nunca ler num romance ou numa poesia que estas são possibilidades da existência humana, ficará perplexo e simplesmente não entenderá o que está acontecendo se lhe assaltarem um dia. Ou seja, ele não é capaz de conceber aquela situação. E, mesmo depois de passar por ela, terá dificuldade de compreendê-la. E, provavelmente, se alguém lhe der uma explicação que seja mais compatível com o seu legado cultural, ele imediatamente a aplicará. Por exemplo, se alguém disser que o ladrão levou seu dinheiro porque pensou que era dele, é bem provável que o sujeito acredite, porque a outra hipótese não cabe em seu campo imaginatvo, portanto está fora de sua capacidade perceptiva.

Mas a pergunta inicial era: qual cultura molda a vida de cada um de nós? E a resposta é: depende de quem você está falando. Por exemplo, o sujeito que se limita a ver TV tem a maior parte do seu imaginário moldado pelo que aconteceu nos últimos 6 meses. O que, além da TV, lê jornais e revistas semanais tem seu campo restrito aos últimos 2 anos. Se de vez em quando a pessoa lê algum romance da moda, isso amplia seus horizontes para 5 anos. Quem lê os romances clássicos consegue abarcar os últimos 300 anos. E quem conseguiu aproveitar todo o legado literário ocidental, atinge 2400 anos, mas com sérias restrições. Explicarei a razão de tais restrições a seguir.

De um modo geral, as 4 grandes influências na formação da cultura ocidental são: Cristianismo, Judaísmo, Platão e Aristóteles. Quem quiser acrescentar o legado romano não fará mal, mas ele está de certa forma abarcado pelos anteriores. Nosso imaginário está aí dado. E é praticamente tudo que o ser humano realmente é capaz de conceber. Digo “praticamente” porque há elementos da cultura oriental que realmente fogem deste campo, mas não é tanto assim quanto se imagina. Não vou discutir isso agora.

Então imagine círculos concêntricos, sendo o mais externo formado pelos 4 pilares referidos acima. Os círculos internos correspondem a níveis culturais progressivamente mais restritivos, até chegarmos ao nível da cultura puramente televisiva. Não saberia delimitar exatamente todos os círculos internos – talvez ninguém o saiba – , mas é certo que um deles é de extrema importância: o círculo da cultura moderna determinada pelo iluminismo, principalmente pela filosofia e ciência iluminista.

A influência deste círculo cultural é hoje tão avassalador que não seria exagero afirmar que mais de 90% do imaginário do homem moderno é dominado por ele. Portanto, mesmo aquele sujeito descrito acima, que conseguiu absorver todo o legado literário ocidental, pode nunca penetrar realmente em suas profundezas, pois tem grande chance de interpretar tudo que leu à luz da cultura iluminista. Ou seja, o sujeito lê a Bíblia, as histórias de cavalaria medievais, Sófocles, Ésquilo, Eurípides, Aristófanes e ainda assim não consegue adentrar no campo imaginativo deles, porque a cultura iluminista funciona como uma mordaça cerebral, que impede a imaginação do sujeito de sair daquele tipo de concepção simplificada da realidade.

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2 Respostas to “Influência Cultural”

  1. Gustavo Nogy Says:

    Gostei da volta. Saudosos tempos, em que brigávamos e nos reconciliávamos por esse blogs da vida. Nos conhecemos assim, não é mesmo? Logo volto a escrever também. (Aliás, estou escrevendo, mas não publico em blogs). Agraços, vida longa!

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