Um dos mitos criados pela modernidade, de enorme influência sobre nossa vida cotidiana, é o mito do progresso. Esta é a primeira era da história em que o homem se acha intrinsecamente melhor que os outros tão somente por estar vivendo em determinado período histórico. Em nenhuma outra época, os homens se acharam melhores que os do passado nem tampouco pensaram que tudo estivesse progressivamente melhorando. Não cabe aqui analisar como esse mito surgiu nem como se consolidou, mas o fato é que hoje em dia é o contínuo avanço tecnológico que mais ajuda a perpetuar essa impressão, como se a análise de um único aspecto da vida humana pudesse servir de parâmetro para tudo o mais.
Para não entrar em controvérsias, vou dar um exemplo típico de uma área em que houve regressão e não progresso: a música. Será que há alguém capaz de discordar que já não temos mais nenhum Bach, Vivaldi, Mozart, Beethoven ou mesmo um Wagner? Bem, e ainda assim, é comum se ouvir dizer que estes compositores estão ultrapassados. E assim se diz tão somente porque viveram antes de nós. Somente por isto e por nenhum outro motivo. E quem houve tal argumento acha normal. Em outra época todos tomariam por louco quem pronunciasse tal sentença. E tal impressão de normalidade advém unicamente do mito do progresso, impregnado nas consciências de cada um de nós, de tal forma que se torna extremamente difícil convencer um outro de algo banal e óbvio: Bach era melhor que qualquer compositor atual. E há quem se convença, mas afirme que, mesmo sendo melhor, não convém ouvi-lo mais, porque seu tempo já passou. Ora, vejam que transformação o mito do progresso causou na alma humana: nem mesmo o valor serve mais como critério. Não importa se é melhor, mas se é “adequado” ao mundo atual. E o que é adequado ao mundo atual? O que é atual. Que maravilha, hein? Ou seja, estamos trancafiados em nosso tempo, não podemos nos elevar acima dele. Como chegamos ao ponto de achar que o confinamento temporal é melhor que a abertura? Como incrustamos em nossos corações a idéia de que o tempo é senhor de tudo? E como não percebemos que isto não pode jamais ser um progresso?
Curar-se deste mal parece fácil, mas não é. Mesmo os que chegam a compreender a estupidez do mito não conseguem agir sem se deixar influenciar por ele. Não adianta nada você me dar razão, mas continuar agindo como se eu não a tivesse. Voltando ao exemplo acima, acho incrível como há quem concorde com tudo que eu digo e depois ache esquisito o fato de eu ouvir tais músicas. Tenho amigos que, em conversas particulares, apóiam todos os meus argumentos, mas continuam ouvindo as mesmas ridículas musiquinhas modernas e ainda acham graça quando seus filhinhos as dançam. Ou seja, o mito só foi rechaçado em teoria, na prática é ele quem continua orientando suas vidas.
Fiz uma experiência com meus filhos de 3 e 4 anos, que não é difícil de repetir. Faça isto se for possível, caro leitor. Apresentei-lhes músicas tipicamente infantis dos dias de hoje e mesclei-as com o Aleluia de Handel. Eles só pediam para repetir esta última, chegando quase à exaustão. Agora já ouvem também Beethoven, Brahms, Bach, Vivaldi e outros. Ou seja, se for oferecido ao ser humano a possibilidade de escolher entre o melhor e o pior desde pequenininho, ele geralmente escolherá o melhor, ainda que seja apresentando com menor freqüência. O problema é que o que há de melhor lhe é inteiramente negado. Já adulto, com o ouvido viciado, não é mais fácil fazê-lo se acostumar com algo tão diferente, e fica até difícil captar a complexidade de uma música quando já se está acostumado com a banalidade de outras.
Acredite, caro leitor, é possível escapar do mito do progresso, ainda que ele nos deixe alguns arranhões. Mas é preciso querer.