A moda está na moda

Não sou contra a moda. Sou contra o fato de que seja moda estar na moda. Eu não estou nem na moda nem fora de moda. Dá mais trabalho ficar fora de moda do que estar na moda. Tudo que está à venda está mais ou menos na moda. Uns mais, outros menos. De forma que ficar totalmente fora de moda é quase impossível. Sei que é possível comprar produtos da moda e mesmo assim ficar fora de moda, é só combinar tudo errado. Mas, mesmo isso, é mais trabalhoso do que combinar tudo certo, ou combinar mais ou menos certo. Por isso, não me sinto completamente na moda, porque não faço quase nenhum esforço para tanto, mas também não sou tão esquisitão quanto poderia ser, porque o trabalho seria ainda maior. Houve um tempo em que eu já estive bastante fora de moda, quando cheguei a vestir camisa de linho com tênis. A roupa era toda branca, inclusive o cinto. Bons tempos. A moda não existia para mim. Mas, ainda assim, aquilo não era tão esquisito assim, não chamava tanta atenção.

Há quem se vista totalmente fora de moda apenas para chocar. Estes às vezes ficam tão atentos à moda quanto os que estão fora de moda. Porque a moda muda tão rapidamente que, se o sujeito não ficar atento, aquilo que ele vestia para chocar, um mês depois pode torná-lo um perfeito mauricinho.

Não vejo nenhum problema em estar na moda. Também não vejo mal algum que se perca tempo com a moda, desde que aquele que o faça reconheça que aquilo é apenas um detalhe insignificante de sua vida, ao qual se está atribuindo um valor acima do merecido. Eu, por exemplo, perco tempo com muitos coisas que sei que não têm importância quase nenhuma e com outras que até me diminuem enquanto ser humano, mas das quais não consigo me livrar. O problema é a pessoa fazer isso e querer se convencer de que é algo de grande mérito. Aí já houve uma total inversão de valores. O sujeito é Marta e está achando que é Maria. É um pouco demais, não?

Um outro aspecto importante é o seguinte. Geralmente, quem faz questão de estar na moda alega que não está se vestindo para ninguém, mas para si próprio. Costuma alegar também que não é totalmente influenciado pela moda, que tem seu gosto próprio e que, portanto, não é totalmente manipulado pelo gosto alheio. É tudo mentira. E a falta de consciência de que está mentindo só torna a coisa mais farsesca ainda. A falsidade se torna realidade. É fácil de provar: digamos que o sujeito entre numa loja e ache um determinado produto lindo. Agora considere que ele o exiba para 50 pessoas e que todas o achem ridículo. É óbvio que ele não o usará mais nunca. Cadê o gosto próprio, cadê a autodeterminação? E pior: dizer que se veste para si próprio é algo doentio. É mais natural e mais saudável que a gente se vista para agradar a quem se dá importância: ao pai, à mãe, à esposa, ao marido, ao filho, aos amigos mais próximos. Não falo de conforto. Que se prefira um produto porque é mais confortável, tudo bem, é claro que apenas o subjetivo entrará em questão, mas a beleza, a estética têm de estar vinculadas ao relacionamento com o próximo, não podem ser independentes disto, pelo menos no que diz respeito ao vestuário.

O controle que a moda exerce sobre as pessoas precisa ser percebido. E quase nunca o é. Deixar se manipular sem perceber é se rebaixar enquanto ser humano, é se deixar ficar numa situação infra-humana. Por isso, apesar de não parecer, este é um assunto de uma certa importância. Porque a moda não existiu sempre. É um fato da modernidade. E só se tornou possível depois que instrumentos de manipulação da vida alheia se tornaram disponíveis. No passado, as pessoas se vestiam para mostrar o que as caracterizavam, porque o vestuário dizia algo sobre elas próprias, falava de sua família, tinha uma certa nota individuante. Hoje as pessoas sonham que a roupa possa ser ainda isso, não sabendo que o máximo que ela pode mostrar é um aspecto de sua epiderme emocional e nada mais. Não há nada no vestuário moderno que possa simbolizar o mínimo de algo mais profundo do ser humano.

Quanto à manipulação, é algo vexaminoso. Eu fico impressionado com a certeza com que as pessoas atribuem beleza a certas peças de roupa que há 6 meses elas mesmas julgariam horrorosas. E o pior é ver que este fato lhes passa despercebido. Hoje não se usa mais sapato de bico fino. Quanto tempo vocês querem para que eles entrem na moda novamente e todos passem a usá-lo, deixando de alegar que são ridículos como são considerados hoje? O sujeito é simplesmente incapaz de olhar para o sapato em si, abstraindo toda a influência ao seu redor, e ver que o sapato de bico fino, em si mesmo, não é mais feio nem mais bonito que os outros. Esteticamente, é algo irrelevante. Tanto sim, que se muda de preferência a toda hora.

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